O CONSTRUTOR DE MOINHOS DE CANA

 

O avô do Carlinhos era um filho da terra... e do mar. 

António - era esse o seu nome- cultivava o solo, pescava no mar e criava animais como galinhas, ovelhas e cabras. Trabalhava de sol a sol e o seu dia a dia era todo passado fora de casa, por isso, tinha pele tisnada pelo sol- era mesmo muito moreno. 

Era também um homem muito simples e analfabeto.

O Carlinhos admirava imenso o seu avô pois na sua tenra idade, nunca conhecera outra pessoa semelhante a ele! É verdade que ele não sabia ler nem escrever como os outros adultos, mas de resto o seu avô parecia saber de tudo! O avô do Carlinhos era mesmo muito sábio!

Ele  sabia como pescar com cana de pesca e ainda capturar polvos, lapas e lingueirões por entre as rochas. E mexilhão e berbigão na lagoa de Óbidos. Ele sabia quando plantar, como cuidar das batatas, dos legumes e das árvores de fruto. Ele sabia cuidar dos seus animais, alimentá-los, levá-los ao pasto, ordenhar e fazer queijos.

Aos olhos do Carlinhos parecia que não havia nada que ele não soubesse fazer e isso era motivo de muita admiração e orgulho do pequenito! Havia pessoas adultas que também sabiam fazer algumas dessas coisas, mas nenhuma congregava em si tantos e variados saberes! O seu avô devia mesmo de ser especial e único no planeta!

Mas havia uma coisa que era mesmo muito especial aos seus olhos de criança. Era especial porque só o seu avô sabia fazer isso, pelo menos para o Carlitos não havia mais ninguém que o sabia fazer!

O avô António era um construtor de moinhos de cana! Moinhos que funcionavam mesmo! Que rodavam ao ritmo da velocidade do vento e não eram apenas para decorar. Ele tinha aprendido esse oficio com o seu pai, que por sua vez  tinha aprendido com o seu avô e... assim esta habilidade passara de geração em geração como uma herança familiar valiosa.

No jardim da casa dos avós existiam vários moinhos de cana, que o avô pacientemente fazia e mantinha operacionais. Isso tornava a sua casa também especial e comentada na aldeia. O avô António era mesmo a pessoa mais popular de toda a aldeia!

De vez em quando levava o rebanho de cabritas e ovelhas a pastar perto da capela de Sant’Ana em Salir do Porto. O Carlinhos adorava esse passeio pois as vistas eram deslumbrantes sobre a serra e o mar e o avô contava muitas histórias de piratas e de naufrágios na baia de S. Martinho do Porto. Para uma criança de 7 anos isso era mágico!

Um quente dia de verão, porém, estavam os dois a caminho da capela quando o avô António começou a passar mal. Com suores frios e tonturas acabou por cair no chão… Coitado do avô e do Carlitos, ainda criança ,e num tempo em que não havia telemóveis… O pequeno primeiro chamou pelo avô e abanou-o mas viu que a coisa era séria e que ele não respondia. Não o queria deixar sozinho porém tinha de chamar alguém que o auxiliasse, por isso, decidiu voltar para trás até à povoação de Salir do Porto na tentativa de encontrar alguém que os pudesse ajudar.

Ainda não chegará à localidade quando avistou um lenhador. Correu para ele e contou o sucedido. O homem disse que era melhor irem ao café do Teixeira pois lá tinha um telefone, e assim, podiam ligar para os bombeiros o irem buscar e levar para o hospital em Caldas da Rainha. Assim fizeram. Mas passara muito tempo mais de uma hora…

 O seu avô morreu ali mesmo perto da capela de Sant’Ana, em Salir do Porto no alto daquela vista deslumbrante e surreal. E ali mesmo o pequeno Carlos jurou que iria treinar muito e fazer moinhos de cana que ele colocaria espalhados no monte como que alegres monumentos de homenagem ao avô António, o homem dos sete ofícios.

Por isso, quando visitamos a capela de Sant’Ana encontramos do nosso lado direito, ou seja, do lado do monte tantos moinhos de vento. São moinhos feitos pelo Carlinhos que cresceu, se fez homem e que quase todos os fins de semana vai lá deixar mais um ou dois ou mais. 

Todos comentam e apreciam… Bom, nem todos! Alguns alheios a esta linda história de amor e de amizade entre um avô e o seu neto, alheios a essa beleza desafiadora dos ventos fortes do oeste, destroem-nos ou então simplesmente roubam-nos... mas lá vai o Carlos estoicamente ao fim de semana repará-los e substituí-los, ignorando os protestos da sua esposa, que acha esta história uma obsessão sem sentido. É o seu hobby, não é ... é mais do que isso... É o seu tributo ao seu avô, ou a forma encontrada de o imortalizar através do seu ofício.

As pessoas fotografam . As pessoas gostam. E o Carlos sente orgulho e nostalgia por aquele avô incrível que tantas boas memórias lhe deixou… Sente também que cumpre uma tradição familiar que começou lá atrás de construtores de moinhos de vento de cana...

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O Carlos morreu há um ano, inesperadamente, como o avô… Dizem que foi do coração…

Já não há quem faça os moinhos. Quem faça a sua manutenção… Que pena! Uma perda irreparável, não acham?!

 O Carlos teve duas filhas que nunca quiseram aprender a arte de construir moinhos de cana. Já os netos preferem jogar nos computadores, ver TV e tem as suas vidas…

Haverá alguém que mantenha viva esta tradição que embelezava os montes, despertava a imaginação, e alegrava os visitantes e turistas a caminho da capela de Sant’Ana em São Martinho?!

 

 

 

 

 

 

 

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